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Poderia ser com qualquer uma de nós


Eu tinha entre 13 e 14 anos. Gostava do rapaz. Estávamos numa festa, num bairro periférico de Brasília. Ele me chamou pra passear pela rua, eu fui. Eu estava com a perna engessada. Paramos em um beco, começamos a nos beijar, ele se empolgou. Começou a tentar subir minha saia, eu falei que não queria daquele jeito. Eu era virgem afinal. 
Ele perguntou se eu gostava dele? Eu respondi que sim. Ele falou pra que eu fizesse aquilo por ele. Respondi que não estava pronta, que não queria daquele jeito. Ele começou a me apertar contra o muro chapiscado do beco. A abrir minhas pernas com força. Eu pedi pra ele parar pois estava me machucando. Ele ficou com raiva, e saiu andando.
Sai andando com dificuldade, sem entender muito bem o que tinha acabado de acontecer. Ele parou lá na frente, me esperou, e disse: não abre a boca!
Voltei pra festa, chamei minha amiga pra me levar até a esquina, e ele tava me esperando lá com um amigo. Tava nervoso. 
- Não fala pra ninguém. Não abre tua boca. 
Respondi: 
- Você é louco. Você é maluco. Mas não se preocupe, não vou falar não. 
Ele apertava o meu braço, olhos arregalados e repetia, não fala pra ninguém.
O amigo dele chamou ele e pediu pra que ele parasse - Vai machucar ela mano. 
E eu fui pra minha casa. Cheguei querendo pedir proteção pro meu pai. Mas não tive coragem, tive medo, senti que de alguma forma eu tinha provocado isso. Tive vergonha.
E nunca falei sobre isso. Com ninguém. Até hoje. 
Se tivesse acontecido algo, a culpa seria minha por estar numa festa, seria dos meus pais, por deixar uma menina tão nova ficar até de madrugada na rua, seria minha por ter ido passear, por permitir que ele me levasse até o beco. Seria minha por estar usando saia. Seria minha por nem com um gesso na perna ficar em casa quieta. A culpa seria minha, seria de qualquer pessoa. Menos dele. 

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