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Mostrando postagens de 2017

Rustie - Attak ft. Danny Brown

Não consigo não me mover com esse som!

Casual

Eles conversaram durante uma semana, e resolveram se encontrar. Pré-acordo de casualidade estabelecido com sutileza, sendo assim, vamos ao sexo. Ela pensava “É de uma transa casual que eu preciso. É certamente isso.” Já ele não pensava muito no assunto.
A saída: –  Posso te buscar às 22h então? – Ela leu, e sentiu seu coração acelerar. – Okay – Digitou e enviou em seguida, querendo parecer o mais despretensiosa o possível. Enquanto escolhia uma roupa, ela pensava “Por que estou tão ansiosa? Estou enjoada? Sério? Acho que quero vomitar. Não é nada demais, só uma saída, garota.” Tomou um banho, vestiu uma calça jeans, pra que não parecesse aqueles encontros específicos pra sexo, ainda que fosse um encontro específico pra sexo. Passou o seu melhor perfume. Fez aquela maquiagem, que faz parecer que não se está usando maquiagem alguma. E estava pronta. Cerca de dez minutos depois do horário combinado, uma mensagem chega: – Me enrolei um pouco, mas já estou chegando. Ela ficou sentada no …

Capricorniana

A capricorniana está na mitologia grega como aquele ser misterioso, que cospe gelo, quer congelar todos ao redor, e ser a todo custo, a rainha desse topo de gelo. Aliás, mitologia grega que nada, crendice popular mesmo.
Ainda que fosse real, gelo por um acaso não queima como o fogo?
Ela queima, derrete, arde, vira pó, renasce. Tudo isso sem mudar a expressão do rosto. Ela é uma bagunça metodicamente organizada.
Antes de te encontrar ela treina o ‘Oi’ dela, o teu ‘Oi’ e o ‘Como vai?’ que se segue, de ambos. Ela treina a fala, a réplica, a tréplica, e ai de quem não seguir o script.
Quatro elementos: Ar, água, fogo e terra. Quem mais terra que ela? A palavra chave pra ela é ‘certeza’. Ela quer certezas. Ela quer ter a certeza, que você quer com certeza, aquilo que nem ela sabe ainda se quer, ao certo. Mas ela precisa ouvir o:
- Sim, eu quero!
Para então dizer:
- Ah, legal. Vou pensar a respeito e te digo se quero tá. Não me pressione.
Loucas.
Interessantes.
Determinadíssimas.
Intensas.
Nervosas.
An…

Leal

Seja leal, mesmo quando escolher não ser fiel, seja leal.
Leal a você mesmo.
Leal com quem você se envolve.
Leal com aqueles que você envolve em suas histórias.
Respeite sua verdade, sempre.
Suelen Vieira

Carta as minhas paixões

Eu amei vocês. Amei vocês com todas as minhas forças. Amei vocês de todo o meu ser. Amei com as entranhas. Amei com o coração, as tripas, o estômago. Amei vocês com o esôfago, com o diafragma. Amei vocês com o espírito, com a alma, com o perispírito, com a carcaça que me sobrava. Eu amei vocês com minha carne, pura carne, pura luxuria, puro pecado. Eu amei vocês com meu sexo, sexo insadecido, sexo enlouquecido, sexo apaixonado. Amei vocês com minha paixão doente, meu ciúmes exagerado. Amei vocês de preto, e de rosa. Amei vocês no meio da rua, e no hotel mais caro. Amei vocês no caderno, no diário, no texto digitado, e no texto blogado.
Eu amei.
Eu amo.
Eu amor.
Eu sou amor.
Eu sou puro e louco amor.
Amei vocês nas músicas, nos filmes, nas lágrimas derramadas.
Amei vocês na cama, no quarto, nas gozas gozadas.
Amei vocês pela manhã, pela madrugada, nas noites acordas.
Amei vocês nas brigas, nos acertos, nas distorções de mim mesma.
Amei vocês nos porres, nas bebedeiras, nas boemias.
Amei.
Amei.
Ame…

Feliz dia dos namorados

Ela começou a escrever ao som de "What's up?" de 4 Non Blondes. Implorando para não ser interrompida ou tirada desse clichê gigante em que ela se encontrava. Algumas lágrimas escorreram, mas sem sofrimento, lágrima de algo ou alguém. Vá até ela, eu te levo. Cidade diferente, noite de dia dos namorados, necessidade de riscar, de falar, de gritar sem ser interrompida.
Um entendimento, ela entendeu. Ela precisa se apaixonar por si mesma. Depois de tantas paixões desenfreadas, de perdas e ganhos calculados, ela entendeu. Ela precisa viver essa relação consigo mesma.
Ame-se. Ame-se. Ame-se. Ame-se. Ela não está dizendo que deixou de esperar pelo amor, ela mais que ninguém acredita e espera por ele, daqueles de balançar estruturas. Ela só compreendeu que ela precisa transbordar amor por ela mesma. Não deixou de acreditar no amor a dois. Pelo contrário, percebeu uma nova dimensão de amor. Aquele olho no olho com o reflexo. Hoje ela resolveu se presentear de várias formas. Hoje e…

Pegada

Há quem se espante,
Com minha forma de amar,
Com minha forma de querer ser tocada. Há quem recue,
Quem se assuste,
Quem não aguente o tranco
de me ver por cima,
Rebolando. Dona da porra toda,
Segura que está fazendo bem feito,
Segura que nesse quarto,
Nesse carro,
Nessa sala,
Nessa escada,
Nessa garagem,
Ou nessa praça,
Quem manda sou eu. E eu mando até quando estou obedecendo.
Te mando mandar e você adora.
Te cedo o comando e você se amarra. Há quem não aguente,
E eu não aguento eles. Pegada eu também tenho meu amor,
Eu te pego, sacou?! Não se assusta não,
Prometo não fazer nada que você não queira. - Suelen Vieira

Brindemos à tristeza

Eu estou fraca, estou frágil. Por ora não consigo fazer movimentos bruscos, por ora não consigo me erguer muito alto, por ora não consigo lidar com barulhos, desorganizações, multidões, por ora me concentro em minha respiração. E tudo bem. Tudo bem estar triste, tudo bem estar frágil. Tudo bem querer ficar quieta. Tudo bem. Tudo bem querer passar o fim de semana em casa, tudo bem não querer ver ninguém. Tudo bem ser casulo por um tempo, casulo vira o quê? Borboleta não é mesmo? Eu aceito essa fraqueza momentânea do mesmo jeito que aceito tudo na vida, pois que tudo é passageiro. Se é preciso se calar pra ouvir o que a alma pede, eu me calo. Com prazer, eu olho pra mim mesma, com prazer eu encaro minhas chagas, com prazer eu encaro o desprazer, com fé na vida, fé em mim. Eu calo, eu me aquieto, e eu me melhoro, e eu evoluo. Por fim agradeço, agradeço o momento, e durmo. Amanhã é um novo dia, ou talvez extensão dessa noite, amanhã eu tenho a mim de novo, amanhã estou aqui. Talvez melhor…

Relato

Olhos que se assustam com o branco na Crackolândia.
Olhos que se espantam com o preto na Disneylândia.
Olhos que se acostumam com o pretinho na rodoviária. Boca que pergunta, cadê sua mãe?
Para o loirinho, na mesma rodoviária.
Cotas não, todos somos igualmente capazes.
Aham, tá! [Faz o teste do pescoço, qual a cor da tua empregada? Seu texto é totalmente fora do contexto!
Que texto?
Num falei que era um texto.
Isso se trata,
Na verdade,
De um relato. Atentem-se para os fatos:
Foi em frente à minha casa,
foi do lado da casa da vó dele,
o tiro atravessou o boné, a voz atravessou a parede. - Olha a cara de bandido. Foi também em frente a minha casa,
pela fresta da janela.
Eu moleca não entendia,
Brincadeira de polícia e ladrão,
o ladrão dando a coca pra polícia. Vou contar só mais uma história,
pro relato não ser tão longo.
Lembra do tiro que atravessou o boné?
Pois é!
Ele estava a pé. Outro dia lá na mesma rua,
Entrou o vizinho, White color, fugindo dos cana
Depois de agradir a ex mulher. Fugindo da polícia.

Voltando

Tô louca pra que seu rosto suma dos contatos recentes.
Tô louca pra que seu rosto suma dos sonhos indecentes.
Tô louca pra deixar de estar louca, você me entende? Exilada de mim mesma,
Estou louca pra poder me aproximar de novo.
Perdida de mim mesma,
Estou louca pra me encontrar de novo. Noites mal dormidas de uma forma negativa.
Porque tem mal dormida boa né?
A gente sabe bem que tem. Tô louca pra que seu nome não me cause nada.
Tô louca pra que isso tudo, vire nada.
Tô louca pra não me sentir mais tão cansada.
- Suelen Vieira

Ela

Ela era assim, olhar angelical, olhando como quem está prestes a devorar tudo e todos ao redor. Quando ela olhou pra ele, tudo mundo já sabia. Ela vai foder com sua alma, ela ia.
Um convite silencioso partiam dos olhos verdes, um convite:
- Fica comigo!
Ela não falou, tampouco ele ouviu. Mas o fica comigo estava ali, entre os dois.
Ela queria ser salva de si mesma. Ele queria salvá-la do mundo todo. Suelen Vieira

Hoje

Hoje eu quero ser eu
sem ter que me esforçar.
Ser eu naturalmente,
sob a luz, ou sob a meia luz.
Sob você, ou sobre você.
Sobretudo, ser eu
no que diz respeito
sobre você.
Ser eu sem vergonhas,
e ser sem-vergonha.
Por que não? Suelen Vieira

Texto

Eu sou uma série de textos
começados
e não terminados,
uma série de rascunhos,
uma série de parágrafos 
abandonados. Eu sou a bagunça
do texto escrito
no momento exato
da sua criação. Eu sou o caos
que é o caderno da menina,
e todo o amor que nele há.
E toda a dor.
E toda a melodia.
E por fim,
toda a poesia. Eu sou poesia. Texto pronto,
texto alinhado,
eu sou poema. Texto chorado,
texto berrado,
eu sou verso. Eu sou poesia. - Suelen Vieira
Imagem: Julie de Waroquier

Reflexo

Um dia desse eu cheguei em casa,
Tirei a roupa,
E parei, nua, diante do espelho. Mãos na cintura, postura reta, quase que congelada. Eu respirei fundo, e perguntei: - Quem. É. Você ?
Assim, bem silabado.
- Quem é você? Eu virei de lado, eu virei de costas, eu virei de frente pr'aquele reflexo crítico, pense num olhar duro, aquele ali, e perguntei:
- Quem somos nós? Não adianta fugir, não adianta direcionar o olhar pras curvas, pras celulites, não. Responda.
Além disso tudo, além dessa camada física, dessa roupagem, além do corpo, além de tudo que você vê, de tudo que você está me mostrando, que você está me apontando, quem é você? Quem somos nós duas, eu e você?
O que queremos ser, no que queremos nos transformar?
O que precisa passar por uma alquimia em nós?
O que?
Você acha, que o que precisa ser depurado, é o seu físico, os dez quilos que gostaria de perder?
O que você acha?
Um silicone? Uma redução da bochechinha?
O que você acha?
Você acha que você pode se espiritualizar?
Que você pode ten…

Ensadecida

Faz assim,
faz com força,
com vontade,
faz gostoso. Amarra-me,
sufoca-me,
toca-me,
beija-me,
chupa-me. Quero,
derreter,
gemer,
gozar,
desaparecer. Vou,
subir e descer,
gritar pra você,
fazer o que você queira,
te mostrar que sou sua,
inteira. Então,
amarra-me,
e observa,
observa eu rebolar
ensandecida,
louca,
querendo você,
em mim. Eu que controlo tudo,
eu que quero definir
o correr do relógio,
eu,
eu te dou o poder,
eu me dou pra você,
de bandeja,
e todinha. Amarra-me e me domina.
Hoje e quiçá amanhã,
sou tua,
sem pormenores,
sem condições,
tua. - Suelen Vieira
Imagem: Apollonia Saintclair

Não é você, sou eu.

Não é você,
Sério,
Não é você.
É minha vontade de amar,
Minha vontade de voar,
É minha vontade de pintar
o infinito com alguém.
Mas não é você.
Provavelmente,
não seja ninguém que já veio.
Eu vou saber,
Quando surgir, eu vou saber.
Algo em mim vai mudar,
E eu vou saber,
Que a partir dali,
Me tornei amar,
Me tornei amor,
E eu vou saber,
Assim como sei agora,
Que não é você. - Suelen Vieira

Quarto vermelho

Algum quarto vermelho, de um motel barato. Assim começa essa história, assim termina essa história.
Você me veio, com a caixinha de Pandora, e ali mesmo, libertamos nosso bem e nosso mal, nossos anjos e nossos demônios. Que por ora, dançavam todos juntos.

O que eu puder fazer pra te levar à loucura hoje, farei.
Faço.
Dois desconhecidos, dois amigos íntimos, dois amantes apaixonados.
Somos.
Tudo.
Nada.

O que faz isso aqui ser tão denso e forte?
As mentiras que conto?
As mentiras que me conta?
Os contos que nos tornamos?
O que faz o desejo ser tão desproporcionalmente maior que o bom senso?
O que faz eu te querer tanto?
O que faz você voltar?

Perguntas, ecos de perguntas, que povoam minha mente, enquanto você nos serve a bebida quente. Quarto quente. Nós dois, quentes. Nós dois.

Você se vira pra mim e eu esqueço de tudo, você varre os pensamentos, as palavras, as frases, os textos, tudo. Com um olhar você me esvazia.
- Bebe!
Bebida bebida.
- Tira a roupa!
Roupas caídas.
- Agora, dança pra mim!

Eu me viro de …

Minhas linhas

Essa folha tem trinta e uma linhas,
Minhas amadas linhas.
Esse álbum tem trinta e um minutos,
Meus amados discos. Meu passado tem algumas dores,
Minhas amadas marcas.
Meu futuro tem "n" possibilidades,
Motivos para minha ansiedade. Minha vida tem tantos amores.
Quanto ama um coração?
Meu corpo vibra tesão.
Quantas cabem numa noite? Eu transo em bons primeiros encontros.
O que isso faz de mim?
Sua boca suja me julga em seus encontros.
O que isso diz sobre ti? Eu suspiro para céus azuis,
Romântica incurável.
A maldade me apavora,
Ingenuidade impraticável. Meu ciúmes me maltrata,
Descrença intolerável.
Capacidade de confiar roubada,
Porém, culpas não são terceirizadas. Você fez a cama
De tão amargas lembranças.
Eu me cubro delas,
Pois me sinto tão cansada. Descrença e fé na vida,
Palavras desconexas.
Paixão e hiatos,
Palavras desencontradas. Eu e você
Você e ela
Eu e ele
Eu e ela
Ele e ela Eu fiz mais que trinta linhas,
Agora nem tão lindas,
Mas para sempre,
Tão, tão minhas. Eu não queria dizer adeus,
Mas di…

Paleta Universal

Sou todas as cores,
Nuances,
E tons. Sou todos os ruídos,
Notas,
E sons. Um abraço,
Um cheiro,
Um vinho do bom. Uma música,
Uma dança,
Memória,
E lembrança. Sou todas as saudades,
Todos os lutos,
Todas as lutas. Sou todos os erros,
Todos os pecados,
E cada arrependimento. Sou toda inconsequência,
Sou toda repetição,
Toda incoerência. Sou compreensão,
E ignorância.
Ciúmes,
E paixão. Zelo,
E proteção.
Apego,
Prisão. Um universo...
Onde todos os dias, surgem cometas. Onde todos os dias, morrem cometas.
Suelen Vieira

Juice

Beba-me,
como seu fosse o melhor líquido do mundo.
Devora-me,
como se disso dependesse a sua vida.
Ama-me,
como se eu fosse o último dos amantes.
Toca-me,
como se eu fosse a mais bela canção.
Leia-me,
como se cada letra formasse o mais belo poema.
Sente-me,
como se eu fosse o vento a te abraçar.
Olha-me,
como se eu fosse um quadro de Picasso.
Molha-me,
como se eu fosse a planta mais amada do seu jardim.
Abraça-me,
como se eu fosse seu cobertor favorito.
Viva-me,
como se eu fosse a própria vida.
Mata-me,
como se eu fosse a própria dor.
Por fim, beija-me,
como se eu fosse eu, e você fosse você.

- Suelen Vieira Imagem: Nudegrafia

AUSÊNCIA

Estava refletindo sobre isso, a ausência. Quando li sobre Tempos Líquidos, a palavra ausência não saía da minha cabeça.  Ausência e presença.
Ausência e presença. 
E isso ficou martelando. Soltar-se de tudo aquilo que possa me tirar do agora, desligar-me das possibilidades de fuga, e me concentrar em estar presente, em estar no presente, em não me esconder no ontem ou no amanhã.
Se escrever ou ler sobre isso, parece fácil, difícil é fazer. Não é fácil, justamente por tudo ser tão líquido. A era da tecnologia facilita tanto nisso não é? Temos nas mãos um mundo, que nos permite a um clique estarmos ali, estarmos lá, estarmos em qualquer lugar, menos onde de fato estamos. Tenho dificuldade em viver o momento presente, em estar presente. E acredito que muitos compartilham dessa dificuldade. A gente está constantemente buscando fugas, fugindo da nossa própria consciência. O processo de se interiorizar e refletir sobre nós mesmos, sobre nossas atitudes, sobre o porquê de padrões que se repete…

Meios

Em meio a tudo isso,
no meio de toda essa confusão,
de todo esse caos de emoção,
no meio da poeira da casa,
no meio da bagunça da mente,
no meio do abandono,
no meio do experimento,
no meio da rua,
no meio do caminho,
no meio da gente,
no meio deles,
no meio de vocês,
no meio do mundo,
no meio dessa história,
no meio daquela história,
no meio do nosso sexo,
no meio do nosso ódio,
no meio da paixão,
no meio da sala,
no meio dos sentimentos,
no meio da mentira,
no meio da falsidade,
no meio de tudo isso,
de tudo aquilo,
de toda essa mágoa,
de todo esse silêncio,
que precede o fim.
No meio do fim,
o fim chegou,
no meio de mim,
eu descobri mais,
sobre quem sou,
no meio de ti,
eu descobri mais,
sobre quem és,
e quem sou com relação a quem és.

Suelen Vieira

AGORAS

Rolava algum som, que não me lembro mais, estávamos em sintonia.
O beijo encaixava, o corpo encaixava, a mente divagava, a alma sorria.
Uma garrafa de vinho, tomada. A segunda, já pela metade. 
Tudo um pouco mais lento que o normal, menos a mente, que te despia só com o olhar. Você tocava a minha cintura e eu te sentia em cada um dos meus poros, e não conseguia explicar pra mim mesma, como isso era possível.
Sua presença era quente, e fazia meu coração bater bagunçado, como se de repente tudo saísse do ritmo, do compasso. Você beija o meu queixo, o canto dos lábios, e eu sentia o corpo todo inflamando.
Eu fechava os olhos, me concentrando em não implorar pra ser comida, ali e agora. Afinal, eu não queria ser apressada. Você descia, sentia meu perfume, dizia gostar. Falava isso com essa voz rouca, colada ao meu ouvido.
Passava as mãos em meus braços, quase sem me tocar. E me provocava arrepios, difíceis de explicar. A cada beijo, a cada gole, mais tonta, mais zonza.
Tonta de você, e de vinho…

Qualquer

Nos encontramos numa noite qualquer,
num bar qualquer.
Você pediu uma bebida qualquer,
com um sorriso de quem quer. Falamos sobre assuntos aleatórios,
filmes aleatórios,
músicas aleatórios,
e na nossa aleatoriedade, combinávamos. Agarrou minha mão,
como quem não quer nada,
e me deu um cheiro,
como quem quer beijo. Nosso primeiro beijo foi assim,
de qualquer jeito.
Não gravei dia, mês, hora ou local.
Não, não.
Juro que não. Fomos pra sua casa,
brincar de qualquer coisa.
A gente fez qualquer posição,
a qualquer hora,
e de qualquer jeito. Tonteria qualquer.
Zonzeria qualquer. Eu era qualquer uma ali,
você era qualquer um pra mim.
Você dormiu,
abraçado, atracado,
a uma qualquer.
Eu dormi,
fundida, possuída,
por um qualquer. Nesse jogo qualquer,
viramos um querer.
De um qualquer,
tornou-se aquele.
De uma qualquer,
tornei-me dele. - Suelen Vieira Imagem: Leonid Afremov

Visita

Ela desceu sete palmos,
Sem nem sair do lugar.
Afundou nela mesma, ali parada.
Seu olhos ficaram fundos,
E sua garganta ficou seca. Em três segundos,
Aquela chegada,
Pesou ar,
Amoleceu o chão. Ela correu pr'outro ambiente,
Doía estômago,
Doía o âmago,
Doía o peito. Ela foi ao banheiro,
Se esforçou pra respirar,
Mas faltava ar. Ela jogou tudo pra fora,
Choro e líquidos do estômago,
Ela não parava de vomitar,
Nem de chorar. Levantou a cabeça,
Olhou-se no espelho,
Perguntou:
- Quem é você? Quem sou?
Não ouviu resposta,
O rosto lavou,
A boca escovou,
Um sorriso na cara dependurou,
Palhaço triste, virou. Abriu a porta,
Caminhou dois passos,
Calculou cada movimento,
Subiu aos poucos,
Sete palmos de volta. - Olá, tudo bem? Que bom que você veio.
- Ah, obrigado. Essa aqui é fulana.
- Prazer.
- Prazer.
- Fiquem à vontade. Virou as costas e saiu,
Sentou num banquinho,
Abraçou-lhe o corpo,
Sentiu cada corda,
E tocou a canção,
Feita pra ele,
Com ele,
Por ele,
Nele. - Suelen Vieira Imagem: Julie de Waroquier