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Mostrando postagens de Maio, 2017

Reflexo

Um dia desse eu cheguei em casa,
Tirei a roupa,
E parei, nua, diante do espelho. Mãos na cintura, postura reta, quase que congelada. Eu respirei fundo, e perguntei: - Quem. É. Você ?
Assim, bem silabado.
- Quem é você? Eu virei de lado, eu virei de costas, eu virei de frente pr'aquele reflexo crítico, pense num olhar duro, aquele ali, e perguntei:
- Quem somos nós? Não adianta fugir, não adianta direcionar o olhar pras curvas, pras celulites, não. Responda.
Além disso tudo, além dessa camada física, dessa roupagem, além do corpo, além de tudo que você vê, de tudo que você está me mostrando, que você está me apontando, quem é você? Quem somos nós duas, eu e você?
O que queremos ser, no que queremos nos transformar?
O que precisa passar por uma alquimia em nós?
O que?
Você acha, que o que precisa ser depurado, é o seu físico, os dez quilos que gostaria de perder?
O que você acha?
Um silicone? Uma redução da bochechinha?
O que você acha?
Você acha que você pode se espiritualizar?
Que você pode ten…

Ensadecida

Faz assim,
faz com força,
com vontade,
faz gostoso. Amarra-me,
sufoca-me,
toca-me,
beija-me,
chupa-me. Quero,
derreter,
gemer,
gozar,
desaparecer. Vou,
subir e descer,
gritar pra você,
fazer o que você queira,
te mostrar que sou sua,
inteira. Então,
amarra-me,
e observa,
observa eu rebolar
ensandecida,
louca,
querendo você,
em mim. Eu que controlo tudo,
eu que quero definir
o correr do relógio,
eu,
eu te dou o poder,
eu me dou pra você,
de bandeja,
e todinha. Amarra-me e me domina.
Hoje e quiçá amanhã,
sou tua,
sem pormenores,
sem condições,
tua. - Suelen Vieira
Imagem: Apollonia Saintclair

Não é você, sou eu.

Não é você,
Sério,
Não é você.
É minha vontade de amar,
Minha vontade de voar,
É minha vontade de pintar
o infinito com alguém.
Mas não é você.
Provavelmente,
não seja ninguém que já veio.
Eu vou saber,
Quando surgir, eu vou saber.
Algo em mim vai mudar,
E eu vou saber,
Que a partir dali,
Me tornei amar,
Me tornei amor,
E eu vou saber,
Assim como sei agora,
Que não é você. - Suelen Vieira

Quarto vermelho

Algum quarto vermelho, de um motel barato. Assim começa essa história, assim termina essa história.
Você me veio, com a caixinha de Pandora, e ali mesmo, libertamos nosso bem e nosso mal, nossos anjos e nossos demônios. Que por ora, dançavam todos juntos.

O que eu puder fazer pra te levar à loucura hoje, farei.
Faço.
Dois desconhecidos, dois amigos íntimos, dois amantes apaixonados.
Somos.
Tudo.
Nada.

O que faz isso aqui ser tão denso e forte?
As mentiras que conto?
As mentiras que me conta?
Os contos que nos tornamos?
O que faz o desejo ser tão desproporcionalmente maior que o bom senso?
O que faz eu te querer tanto?
O que faz você voltar?

Perguntas, ecos de perguntas, que povoam minha mente, enquanto você nos serve a bebida quente. Quarto quente. Nós dois, quentes. Nós dois.

Você se vira pra mim e eu esqueço de tudo, você varre os pensamentos, as palavras, as frases, os textos, tudo. Com um olhar você me esvazia.
- Bebe!
Bebida bebida.
- Tira a roupa!
Roupas caídas.
- Agora, dança pra mim!

Eu me viro de …

Minhas linhas

Essa folha tem trinta e uma linhas,
Minhas amadas linhas.
Esse álbum tem trinta e um minutos,
Meus amados discos. Meu passado tem algumas dores,
Minhas amadas marcas.
Meu futuro tem "n" possibilidades,
Motivos para minha ansiedade. Minha vida tem tantos amores.
Quanto ama um coração?
Meu corpo vibra tesão.
Quantas cabem numa noite? Eu transo em bons primeiros encontros.
O que isso faz de mim?
Sua boca suja me julga em seus encontros.
O que isso diz sobre ti? Eu suspiro para céus azuis,
Romântica incurável.
A maldade me apavora,
Ingenuidade impraticável. Meu ciúmes me maltrata,
Descrença intolerável.
Capacidade de confiar roubada,
Porém, culpas não são terceirizadas. Você fez a cama
De tão amargas lembranças.
Eu me cubro delas,
Pois me sinto tão cansada. Descrença e fé na vida,
Palavras desconexas.
Paixão e hiatos,
Palavras desencontradas. Eu e você
Você e ela
Eu e ele
Eu e ela
Ele e ela Eu fiz mais que trinta linhas,
Agora nem tão lindas,
Mas para sempre,
Tão, tão minhas. Eu não queria dizer adeus,
Mas di…

Paleta Universal

Sou todas as cores,
Nuances,
E tons. Sou todos os ruídos,
Notas,
E sons. Um abraço,
Um cheiro,
Um vinho do bom. Uma música,
Uma dança,
Memória,
E lembrança. Sou todas as saudades,
Todos os lutos,
Todas as lutas. Sou todos os erros,
Todos os pecados,
E cada arrependimento. Sou toda inconsequência,
Sou toda repetição,
Toda incoerência. Sou compreensão,
E ignorância.
Ciúmes,
E paixão. Zelo,
E proteção.
Apego,
Prisão. Um universo...
Onde todos os dias, surgem cometas. Onde todos os dias, morrem cometas.
Suelen Vieira

Juice

Beba-me,
como seu fosse o melhor líquido do mundo.
Devora-me,
como se disso dependesse a sua vida.
Ama-me,
como se eu fosse o último dos amantes.
Toca-me,
como se eu fosse a mais bela canção.
Leia-me,
como se cada letra formasse o mais belo poema.
Sente-me,
como se eu fosse o vento a te abraçar.
Olha-me,
como se eu fosse um quadro de Picasso.
Molha-me,
como se eu fosse a planta mais amada do seu jardim.
Abraça-me,
como se eu fosse seu cobertor favorito.
Viva-me,
como se eu fosse a própria vida.
Mata-me,
como se eu fosse a própria dor.
Por fim, beija-me,
como se eu fosse eu, e você fosse você.

- Suelen Vieira Imagem: Nudegrafia

AUSÊNCIA

Estava refletindo sobre isso, a ausência. Quando li sobre Tempos Líquidos, a palavra ausência não saía da minha cabeça.  Ausência e presença.
Ausência e presença. 
E isso ficou martelando. Soltar-se de tudo aquilo que possa me tirar do agora, desligar-me das possibilidades de fuga, e me concentrar em estar presente, em estar no presente, em não me esconder no ontem ou no amanhã.
Se escrever ou ler sobre isso, parece fácil, difícil é fazer. Não é fácil, justamente por tudo ser tão líquido. A era da tecnologia facilita tanto nisso não é? Temos nas mãos um mundo, que nos permite a um clique estarmos ali, estarmos lá, estarmos em qualquer lugar, menos onde de fato estamos. Tenho dificuldade em viver o momento presente, em estar presente. E acredito que muitos compartilham dessa dificuldade. A gente está constantemente buscando fugas, fugindo da nossa própria consciência. O processo de se interiorizar e refletir sobre nós mesmos, sobre nossas atitudes, sobre o porquê de padrões que se repete…

Meios

Em meio a tudo isso,
no meio de toda essa confusão,
de todo esse caos de emoção,
no meio da poeira da casa,
no meio da bagunça da mente,
no meio do abandono,
no meio do experimento,
no meio da rua,
no meio do caminho,
no meio da gente,
no meio deles,
no meio de vocês,
no meio do mundo,
no meio dessa história,
no meio daquela história,
no meio do nosso sexo,
no meio do nosso ódio,
no meio da paixão,
no meio da sala,
no meio dos sentimentos,
no meio da mentira,
no meio da falsidade,
no meio de tudo isso,
de tudo aquilo,
de toda essa mágoa,
de todo esse silêncio,
que precede o fim.
No meio do fim,
o fim chegou,
no meio de mim,
eu descobri mais,
sobre quem sou,
no meio de ti,
eu descobri mais,
sobre quem és,
e quem sou com relação a quem és.

Suelen Vieira

AGORAS

Rolava algum som, que não me lembro mais, estávamos em sintonia.
O beijo encaixava, o corpo encaixava, a mente divagava, a alma sorria.
Uma garrafa de vinho, tomada. A segunda, já pela metade. 
Tudo um pouco mais lento que o normal, menos a mente, que te despia só com o olhar. Você tocava a minha cintura e eu te sentia em cada um dos meus poros, e não conseguia explicar pra mim mesma, como isso era possível.
Sua presença era quente, e fazia meu coração bater bagunçado, como se de repente tudo saísse do ritmo, do compasso. Você beija o meu queixo, o canto dos lábios, e eu sentia o corpo todo inflamando.
Eu fechava os olhos, me concentrando em não implorar pra ser comida, ali e agora. Afinal, eu não queria ser apressada. Você descia, sentia meu perfume, dizia gostar. Falava isso com essa voz rouca, colada ao meu ouvido.
Passava as mãos em meus braços, quase sem me tocar. E me provocava arrepios, difíceis de explicar. A cada beijo, a cada gole, mais tonta, mais zonza.
Tonta de você, e de vinho…

Qualquer

Nos encontramos numa noite qualquer,
num bar qualquer.
Você pediu uma bebida qualquer,
com um sorriso de quem quer. Falamos sobre assuntos aleatórios,
filmes aleatórios,
músicas aleatórios,
e na nossa aleatoriedade, combinávamos. Agarrou minha mão,
como quem não quer nada,
e me deu um cheiro,
como quem quer beijo. Nosso primeiro beijo foi assim,
de qualquer jeito.
Não gravei dia, mês, hora ou local.
Não, não.
Juro que não. Fomos pra sua casa,
brincar de qualquer coisa.
A gente fez qualquer posição,
a qualquer hora,
e de qualquer jeito. Tonteria qualquer.
Zonzeria qualquer. Eu era qualquer uma ali,
você era qualquer um pra mim.
Você dormiu,
abraçado, atracado,
a uma qualquer.
Eu dormi,
fundida, possuída,
por um qualquer. Nesse jogo qualquer,
viramos um querer.
De um qualquer,
tornou-se aquele.
De uma qualquer,
tornei-me dele. - Suelen Vieira Imagem: Leonid Afremov

Visita

Ela desceu sete palmos,
Sem nem sair do lugar.
Afundou nela mesma, ali parada.
Seu olhos ficaram fundos,
E sua garganta ficou seca. Em três segundos,
Aquela chegada,
Pesou ar,
Amoleceu o chão. Ela correu pr'outro ambiente,
Doía estômago,
Doía o âmago,
Doía o peito. Ela foi ao banheiro,
Se esforçou pra respirar,
Mas faltava ar. Ela jogou tudo pra fora,
Choro e líquidos do estômago,
Ela não parava de vomitar,
Nem de chorar. Levantou a cabeça,
Olhou-se no espelho,
Perguntou:
- Quem é você? Quem sou?
Não ouviu resposta,
O rosto lavou,
A boca escovou,
Um sorriso na cara dependurou,
Palhaço triste, virou. Abriu a porta,
Caminhou dois passos,
Calculou cada movimento,
Subiu aos poucos,
Sete palmos de volta. - Olá, tudo bem? Que bom que você veio.
- Ah, obrigado. Essa aqui é fulana.
- Prazer.
- Prazer.
- Fiquem à vontade. Virou as costas e saiu,
Sentou num banquinho,
Abraçou-lhe o corpo,
Sentiu cada corda,
E tocou a canção,
Feita pra ele,
Com ele,
Por ele,
Nele. - Suelen Vieira Imagem: Julie de Waroquier

SER

sou poesia, bagunça,
sou caos, desordem,
sou falta de tabulação,
sou falta de parágrafo sou
falta de vírgula.
sou loucu
r
a sou
q
u
e
d
a
sou paixão,
sou chama,
inflama,
ferida aberta,
sou desejo e pecado,
sou proibição,
sou um texto errado,
que nem você,
nem ninguém ousa ler,
sou manicômio,
sou.
sou beijo apaixonado,
sou sexo desvairado,
sou macumba bem feita,
sou uma missa terminada,
sou todas as religiões. sou mar,
céu,
sol,
sou natureza.
sou mãe,
filha,
pai,
sou paz,
sou a terceira guerra,
sounião,
sou segre
gação,
sou segredo,
sou revelação,
sou mistério,
livro aberto,
sou princípio,
meio,
e fim.
sou o fim.
sou o fim.
sou o fim.
sou. - Suelen Vieira

Demônios

Deitei-me com os meus demônios,
Eram três,
Entrelaçamos-nos,
Éramos quatro,
Enquadrados,
Em quadrados,
Em círculos também. Deitei-me com os meus demônios,
Devoramos-nos mutuamente,
A amante,
O medo,
E a dor. Deitei-me com os meus demônios,
Ungiram-me,
Rugiram pra mim,
Urraram,
E eu fui. Deitei-me com os meus demônios,
E tirei a força deles,
Um a um,
Os fiz a meu bel-prazer. Deitei e rolei, com os meus demônios.
Montei sobre meu carrasco.
Beijei a amante,
Gozei o medo,
Gemi para a dor. Dormi com os meus demônios,
Acordei,
Ao meu lado estavam
Três lembranças,
Por ora, amaciadas. - Suelen Vieira Imagem: Apollonia Saintclair

Pêndulo

Me disseram algumas coisas,
E eu vou dizer pra vocês também.
Me contaram que sou sombra
E luz também.
Me falaram que sou o bem no mal,
E o mal no bem.
Disseram-me que sou a ausência de cores,
E o arco-íris.
A guerra,
E a paz.
O amor,
E o desamor.
O apego,
E a indiferença.
Falaram pra mim:
- Você é o todo, o tudo, o nada e o abandono.
Me disseram que sou todos os poemas,
Todas as músicas,
Todas as sinfonias,
Todos os ruídos,
E o silêncio absoluto,
E o sete palmos abaixo do chão,
E o luto,
E o mero gemido,
Da garganta emprazerada.
Me disseram que eu seria sempre incompleta,
Enquanto não aceitasse a polaridade de me ser,
Enquanto não aceitasse,
A frente e o verso.
A luz e a escuridão.
O feminino e o masculino.
O positivo e o negativo.
Aceitei.
Aceitei guerras, pazes, lutas, lutos,
Sorrisos, choros, amores, raivas.
Aceitei.
Busquei equilíbrio,
Sou pêndulo,
Balança,
Libra.
Sou caça,
Caçador.
Fera,
Ferida.
Palavrão,
E amém.
- Suelen Vieira Foto: Alexander Khokhlov

Batom vermelho

Deixar de viver,
Para o batom manter?
Pra que?
Deixar de os lábios pintar
Para então, poder viver.
Por que?
Viver assim,
Tão sem cores,
Tão sem borrões. Pinte e borde,
Beije e borre,
Vermelho e cabernet. Deixa tudo se misturar,
Até azul virar.
Disseram-me que,
A cor mais quente,
É o azul.
Disseram-me que,
Poesia se cria
Com mistura.
Fizeram-me crer,
Que mistura se cria
Com ternura.
Cri. Ah, menina
Qual o sentido da vida,
Se largo de lado meu batom,
Tão vermelho,
Tão vivo,
Pra te beijar?
Ou não te beijo
Tão suave,
Tão macio,
Pra o batom não tirar? - Suelen Vieira

Eu quero

Eu quero, Quero hoje,
Quero amanhã,
E quero ontem. Eu quero,
Meu verbo é presente.
Mas tão além deste presente,
Tão além do passado,
E também do futuro.
De ontem,
De agora. Esse verbo presente,
Estica, estica,
E vai lá no mês que vem.
Vai lá na minha cama,
Vai lá no café da manhã. O mesmo verbo presente,
Estica, estica,
E vai lá no mês passado.
Volta de novo na minha cama,
E me abraça,
Encolhida, amuada. Por isto e por aquilo,
Meu verbo presente é cauteloso,
Cuidadoso.
Cheio de dedo,
De não me toque.
Mas toque. Pois, definitivamente,
Ele é presente.
E definitivamente,
Ele é atemporal.
- Suelen Vieira

Não culpem a poetisa

Não culpem a poetisa por não viver o que ela escreve.
Se ela fala sobre todo aquele amor próprio, e não o tem, talvez seja o que ela almeja.
Se ela fala sobre toda aquela segurança, e ainda não a encontrou, pode ser o que ela busca.
Se ela fala sobre se empoderar, mas não o é, talvez ela esteja apenas tentando.
Não culpe a poetisa, por não viver o que ela escreve.
Escrever é sobreviver.
Escrever é criar novas realidades.
Escrever é respirar.
Escrever é se salvar de si mesmo.
Não culpe a poetisa. Suelen Vieira

A dança entre o mar e a menina

Toda noite, ela dança pra ele.
Toda noite, ela se despi de si,
e se entrega pra ele.
A lua brilha na pele nua,
e ela dança pra ele.
Ela trança o cabelo,
e dança pra ele. Maré vem, ela inspira.
Maré vai, ela expira.
Maré vem, ela se joga pra direita.
Maré vai, ela se joga pra esquerda.
Maré vem, à frente.
Maré vai, a trás.
Ela dança e respira, no ritmo dele. Ela conhece seus mistérios.
Ela conhece seus perigos.
Ela conhece suas sombras. Ele conhece seus encantos.
Ele conhece seus sorrisos.
Ele conhece suas curvas. Ela lhe toca a areia.
Ele se agita.
Ela lhe caminha em direção.
Ele se acalma. Ela lhe canta, com voz de sereia.
Ele chora.
Ele chove.
Ele encolhe. Ela se vai.
Ele se vai também.
Ela se vem.
Ele se vem também. A dança entre o mar e a menina. Eles se veem também. Ela lhe recita poesia.
- Oh meu mar.
Ele lhe repete a palavra.
- Oh meu maaaaar... Ele a abraça.
Ela sorri.
Ele a envolve.
Ela o sentir.
Ele a engole.
Ela se assusta.
Ele a preenche de si.
Ela silêncio.
Ele a chacoalha.
Ela esfria.
Ela. Não mais. Menina. …

Tristeza

Ela chegou,
impossível não notar.
Ela chegou,
murchando risos,
mudando ritmos. Ela chegou,
acelerou o coração,
desacelerou os passos,
que iam, agora,
lentamente,
pra debaixo da coberta,
se deitar com ela. Ela chegou,
e ela é linda,
tem uma beleza fria,
e também muito triste,
quase mórbida,
sempre irresistível. Ela chegou,
me levou pra cama,
se deitou comigo,
e me jurou,
que só ela me ama. Ela chegou,
e a gente se aninhou,
três dias seguidos,
me sugou forças,
fez eu esquecer
das horas. Ela chegou,
me consumiu,
me devastou,
me mastigou,
e me cuspiu. Eu me enrolei inteira nela.
Transamos.
Trepamos.
Fodemos.
Amamos.
Choramos. Adeus! Chegou a hora
de mandar
ela embora. Pedi com gentileza,
que se retirasse
da minha cama.
Ela foi pro sofá,
depois pro meu chuveiro,
me acompanhou em
uma ou duas saídas.
Quando conheci alguém novo,
ela estava ali. Pedi novamente,
gentilmente:
- Vai embora da minha vida! Ela já não se deitava comigo,
nem chorava comigo no banho,
já não me acompanhava
não, em todo canto. A tristeza foi embora,
ela foi caladinha…

Sete Vidas

Vivi todos os meus fins, pra talvez,
chegar até aqui,
e ter um começo
só meu. Disse e ouvi,
todos os adeuses,
e cada um deles,
me devastou em essência,
e de alguma maneira,
à sua maneira. Quantas vezes
é possível morrer?
Quantas vidas
é possível se ter?
De quantas maneiras
podemos renascer?
Quantas,
eu posso ser? Quão bom somos?
Quão mal somos? Quantas vezes
é preciso se despedir,
pra finalmente,
dizer olá? O quanto preciso espernear
perguntas
pra então receber
respostas? Rego flores mortas,
esperando flores vivas.
Vida. Pedaços de mim caem
pra nascerem coisas novas.
Nortes. Sinto o fim,
os fins,
todos,
cada. Sinto em mim,
assim,
lodos,
casca. Enterro sete amores,
agora,
pra adquirir sete vidas,
por ora.
- Suelen Vieira Imagem: Alex Stoddard

Blasfêmia

Chegamos e entramos
Apagamos as luzes
Acendemos o abajur
O incenso e o cigarro Nos acendemos
E agora, acesos
Beijos e abraços
Abraços e apertos Você me vira
 De uma só vez
Me beija o pescoço
E as costas inteira Sua presença se faz
Presente em mim
Toda
Inteira
Calor
Nas bochechas, no colo
Na cintura, nas coxas
E entre elas, e abaixo dela Sua presença me preenche
Antes mesmo da tua posse
Estou entregue, quente
Ausente do resto
Presente no agora Imploro. Por favor!
Por favor! Eu quero!
Agora! Por favor! Agora você me vira de frente
De novo
De uma vez
Me olha nos olhos
Me olha na alma De novo
Você me invade
Você tem disso
Sua presença ocupa espaços vazios
Me beija a boca
Me morde os lábios
Me beija no pescoço
Me puxa os cabelos
Me inclina, me faz gemer
Antes mesmo de me ter Imploro outra vez
Por favor meu bem
Eu já não aguento mais Finalmente um som
Além do som que toca no pc
Você:
- Ajoelha!
Eu, obedeço, imediatamente
E você me abençoa
Com a benção mais sacana de todas Te dar prazer
Me dando prazer
Tu me levanta
De forma delicada
E …

Amor

Primeiro amor
Que não amei
Segundo
Que amei demais
Terceiro
Que inventei
E quarto
E quinto
E sigo
Pintando e bordando
Amor
Criando e inventando
Amar
Transformando e tornando
Amer
Enganando e mentindo pra mim
Amir
Chamo de outros nomes sim
Sinto e os sinto
Amur
Até que chegue
AMOR
Aquele em maiúsculo
Assim
Que faça todo o resto
Sumir
Tornando vazia
As palavras
Tornando insignificante
As sílabas
Amor de olho fechado
Que é
Amor de cabeça pra baixo
Que é
Amor batido, jogado, escarrado
Que é
Amoramoramor
Sem invenção,
Juro que não.
- Suelen Vieira

Furacões

A gente se agarra e cria furacões né,
é incrível essa força que temos,
de anular tudo,
anulamos pessoas ao redor,
anulamos histórias,
anulamos paredes,
e trazemos um universo pra cá,
uma confusão. A gente se beija,
e quando não, giramos 360 graus
em volta de nós mesmos.
Não há lençol que nos aguente. A força que temos,
cria um sexo inigualável,
e infelizmente,
insustentável.
A gente se consome demais,
a gente se devora,
se mastiga,
e se engole.
Impossível sobreviver a isso.
Somos maravilhosamente,
autodestrutivos. Pessoas que se encontram,
se acham,
se encaixam,
e descobrem o dom,
de pintar um sexo gostoso,
o melhor deles, suponho. Pessoas que se tocam,
e se vibram,
mexem com células,
estruturas,
e energias.
Força e fraqueza,
acerto e falha,
tudo ali, em par. Assim como a natureza,
temos ritmo,
e o seguimos tão bem.
Se a natureza nasce,
floresce, frutifica,
e se renova em morte...
Nós também nascemos,
florescemos, frutificamos,
e nos matamos em renovação. É tudo tão cru,
tão essencialme…

Terças e quintas

Ah, malditas!
Terças e quintas.
Antes tão bem vindas,
Hoje só me trazem
Despedidas.
Antes tão bem quistas,
Hoje só são
Malditas.
Terças e quintas,
Terça, tô um trapo,
Quinta é um quinto,
Dos infernos, é claro!
Terça do terço
Que nunca rezei.
Talvez por isso
Pago pecados.
Talvez por isso
Essa agonia,
De quem nunca
Teve paciência
Pro terço
Ou um terço.
De amor
Ou de paixão,
Ou do que quer que fosse.
Terços não,
Sempre querendo
Todos e inteiros e tudo mais.
Quinta sem lua,
Quinta minguante,
Quinta minguada.
Eu minguo,
Eu sumo.
Quintas que não são
Quartos.
Mas que acabamos lá,
Sem porque
Nem pra que,
Pros quartos
Fazer besteira
Até que a quinta,
De novo,
Vire uma sexta.
E você parta,
Um parto te deixar ir.
Ah, malditas!
Terças e quintas.
Antes rodeadas
De boas quartas,
E ótimas sextas.
De bons vinhos,
E vinhos ruins.
E amanheceres,
É claro
E já era claro,
Sem sequer notarmos.
Ah, quinta maldita,
Que me deixa um caco.
Terça difamada,
Que me lembra a quinta passada,
E o quanto fiquei devassada.
Maldita que já foi bendita,
Pelo menos dá essa frase bon…

Chá

Um chá
Num chalé
Xale jogado
Amor sem colchão
Amor não 
Paixão
Que aquece o frio
Desse chão
..
A luz da tv
Fazendo silhueta
Em P&B
Em sépia
Brilha
Suas curvas
 Suas pernas
Seus cabelos
Seu sexo
Meu sexo
Nosso sexo
Nós
..
Você faz tudo girar
Faz eu querer gritar
Eu querer cantar
Assobiar
Dizer te amo
Mesmo sem te amar,
Ainda
Algum dom
Alguma bruxaria
Coisa de menina
Malina
..
Deixa
Eu beijar
Esse corpo que tu ama
Todo ele
Deixa?
E se a gente for a cura,
Pra todas nossas torturas?
E se a gente for a jura?
E se formos o engano?
Ou um perfeito arranjo?
..
Mas deixa,
Aqui mesmo,
No chão,
Te agarrar,
Te fundir a mim,
Até me confundir,
Com quem sou
E quem és
E quem somos
Ou quem fomos
Até me confundir,
E confundir tudo.
- Suelen Vieira Imagem: Kaethe Butche

12

Leva doze minutos
Pra alguém dizer
Que não te quer mais.
Doze horas
Pra alguém deixar de te querer.
Doze dias
Pra alguém querer te ver.
Dozes semanas
Pra alguém se apaixonar.
Doze meses
Pra alguém se machucar.
E alguém sempre se machuca, tá?!
Doze anos
Pra alguém se conhecer.
E ainda assim não se conhecem, ok?!
Doze vidas
Pra gente se encontrar.
Isso quando se encontram.
O tempo é assim mesmo,
Bicho esquisito
E cheio de esquisitice.
Doze badaladas
Apaga
Cria
Traz
E leva.
Doze segundos
Mata.
Doze segundos
Nasce.
Às dozes horas em ponto
Vou embora.
E em dozes dias,
Tu me tens de volta.
Mas só doze minutos
Pra dizer que não te quer;
Isso é
Muito
Pouco
Tempo
Né?!
- Suelen Vieira

Amor difícil

Vamos falar sobre amor próprio?!
Amor próprio de verdade.
É meio fácil se amar, quando tem o corpo, o carro, e o cabelo da moda.
É fácil se amar, quando tá tudo bem, quando a gente se sente linda, quando a cabeça tá boa e a família vai bem.
Não desmereço o amor próprio de ninguém, mas vamos falar sobre aquele amor difícil.
Quando te dizem que seu corpo tá errado, que sua personalidade é sua fraqueza.
Amar a si mesmo, quando quem você ama, não amou de volta.
Quando, quem você ama, ficou com uma mulher bem mais nova.
Amar a si mesmo, quando quem você ama, não te enxerga.
Quando você não se enxerga mais.
Amar a si mesmo, quando sua cabeça tá bem ferrada.
Quando você se arrastou na lama errada.
Amar a si mesmo, quando você não quer levantar da cama.
Quando você não quer comer, ou tomar banho, ou pentear o cabelo, simplesmente por ser esforço demais.
Como se amar assim? Sem ter força pra levantar do buraco, e se olhar no espelho.
Difícil se sentir um mulherão da porra, ficando três malditos dias sem sai…

Pintura

Vermelho rubro,
Azulejo branco,
Água corrente,
Transparente.
Pele fria, cinza;
Antes corada
De uma euforia
Arrancada.
Pintura numa tela,

De autoria desconhecida.
Autora desconhecida,
Dor desconhecida.

Fuga é o nome da arte.
Fuga é o nome do quadro.

Luz vem,
Luz vai,
Luz não tira ela dali.

Ela só conseguiu aumentar
O tamanho do buraco,
No centro do peito,
E ao redor do corpo,
E ao redor do quarto,
E ao redor da casa,
E ao redor da cidade.

E a cidade toda vai saber,
A dimensão do buraco
Que a engoliu para dentro de si,
Fazendo ela pintar esse quadro,
Com tons gritantes
Como sua dor,
Que berrava
Um vermelho rubro,
Em um fundo composto
De um frenesi louco,
De azulejos brancos
Com água corrente,
De cor transparente
Que não levou embora
O que deveria;

Mas era como ela queria ser
Transparente;
Primeiro por um dia
Depois por dois.
Até que todo dia.

Cores frias de uma pele fria,
Cinza,
Como andava a vida,
Que um dia foi antes corada,
Como foi a menina,
Ali estirada.

E a luz que entrou pela fresta,
Não aqueceu ela.
E a …

Tua

Tua
Minha palavra predileta
Meu
A palavra que não me deu
Nem nós
Nem nosso
Só tua
O quanto fui
E fui tanto
Até onde deu
Até onde aconteceu Fim
Minha palavra despredileta
Três da manhã
O horário que a vida escolheu
Pra eu estar em seus braços
Sabendo que amanhã
Não tem abraço
Tampouco adeus Nessa hora
Exata hora
Um buraco me sugou
E fui pra dentro de mim
Lá fiz duas orações
Uma por mim
E outra por você
Por nós, nunca me coube fazer
E a luz que saiu de mim
Iluminou a nós dois
Por um momento nos tornamos um nós De tantos meios que tivemos
Tornamos-nos um fim
Enfim
Quantos meios
E fins
Pra chegarmos até aqui
Nessa exata hora
E fim. - Suelen Vieira